"História é lenda criada pela paixão dos contemporâneos e prolongada pelos sentimentos transmissíveis que facilmente as personagens, obras e circunstâncias inspiram aos pósteros. Nela, mais ou menos real, só o que consta do frio dos regis-tros: nomes, datas, locais. A verdade mesma, essa, perde-se no justo momento que passa, encerrada em poço bem mais fundo que o da fá-bula: o coração humano." — Sendo essa a opinião do autor sôbre a História em geral, pode-se dizer que "João Abade" é o romance de um dos mais singulares episódios do Brasil de ontem. Os personagens que lhe dão vida existiram de fato como coincidiram as datas e os lugares.
Mas, isso mesmo seria dispensável à independência do enrêdo, não fôra sua originalidade e imprevisto. Estranho que os poucos escritores que se preocuparam com Canudos e suas guerras, tenham aludido apenas ocasionalmente a assunto de tanto in-terêsse humano como seja a intimidade do jagunço: o máximo do determinismo dentro das mais absurdas condições de sobrevivência.
O romancista de "João Abade", conhecedor seguro do tema, abste-ve-se de tôdas as outras circunstâncias da ocorrência absorvente para nos contar, com sua técnica de pi-lão, primitiva mas fascinante no encantamento de suas batidas irre-freáveis, curtas e sêcas como os próprios capítulos da obra, como vivia realmente aquela pequena comunidade — os jagunços
— lutando contra o mais terrível de seus inimigos: a adversidade ambiente, ao tempo da guerra absolutamente inusitada de Antônio Conselheiro.